quarta-feira, 10 de maio de 2017

De León a Fisterra, no Caminho das Estrelas (1)

CAMINHO DE SAN SALVADOR
Oviedo, 10 de Maio
No passado dia 5 de Maio, a bordo do Sud Expresso, publiquei o "Dia 0" do meu Caminho de Santiago 2017. À semelhança do Caminho Francês, em 2016, tencionava escrever uma vez ou outra estas minhas memórias ... mas, à semelhança daquele e dos anteriores ... os Caminhos de Santiago são as "aventuras" que menos consigo descrever, nas "páginas" destas minhas fragas e pragas. Um Caminho de Santiago não se descreve ... vive-se e sente-se!
León, 6.05.2017 ... e o Caminho ia começar!
Vivendo e sentindo intensamente alguns dos dias mais Felizes da minha Vida ... escrevo estas linhas já depois de regressar ao ninho familiar. A "aventura" já terminou ... e para trás ficaram 20 dias de magia, de sonho, de comunhão, de partilha; 20 dias de um Caminho duro, física e psicologicamente exigente, principalmente no Caminho do Salvador. Cinco dias de montanha, de verde, de estórias perdidas nos montes, de surpresas e mistérios ... os mistérios do Caminho!

León, 6.05.2017 - Junto ao antigo Convento de San Marcos, o Caminho de San Salvador separa-se do Caminho Francês
Desembarcados em León pouco depois das nove da manhã do dia 6 (e tendo dormitado pouco mais de uma hora no comboio...), comprámos as Credenciais no já nosso conhecido Albergue das Irmãs Benedictinas de Santa María de Carbajal. Catedral, Praça de S. Marcos ... e estávamos no Caminho!
O percurso inicial do Caminho de San Salvador segue o curso do rio Bernesga. O primeiro dia começou logo por superar as nossas expectativas paisagísticas ... e não só. Por entre frondoso olival e admirando a beleza da paisagem envolvente, a Mana Paula sentiu como que uma chamada para rezar uma Ave Maria ... e como que por encanto a Sagrada Família apareceu numa espécie de nicho numa oliveira, com alusão ao dia 13 de Maio de há dois anos. Quanta emoção ali vivemos naqueles instantes!

Quando à vontade de rezar uma Avé Maria ... se segue o aparecimento da Sagrada Família
E que dizer, pouco depois, de umas autênticas mãos que brotam do solo, segurando uma Cruz e abraçando o Caminho que seguimos?... E do autêntico posto de primeiros socorros, para Peregrinos, junto à Fuente de San Pelayo?...
E da terra brotam mãos segurando a Cruz...
Livro de registos e farmácia, no Caminho
Entre La Seca e Cascantes de Alba ... ha nacido el Salvador...
Rio Bernesga, próximo de La Robla
A primeira jornada terminou em La Robla ... e nos dois dias seguintes viria a montanha pura e dura! Em La Pola de Gordón deixamos o vale do Bernesga e rapidamente estamos acima dos mil metros de altitude, rumo a Buiza e às Forcadas de San Antón, quase a 1500 metros. Em Poladura de La Tercia, o original hospitaleiro do Albergue local assustou-nos um pouco com as previsões meteorológicas e não só ... mas ele desconhecia por completo o nosso proverbial contrato com S. Pedro... 😊

La Pola de Gordón, 7.05.2017, 9h40 - Camino de San Salvador ... Caminho de permanente descoberta
Será um lobo, perguntámo-nos a nós mesmos. E é ...
mas um monumento aos lobos da serra de Buiza
El Barrancón, sobre terras de La Tercia, 7.05, 13h40
O terceiro dia do Caminho de San Salvador é, sem dúvida, a "etapa rainha". Esperavam-nos as maiores altitudes ... os maiores desníveis ... e as maiores emoções! Era o dia de cruzar a Cordilheira Cantábrica, no sentido sul - norte, pelo mítico Puerto de Pajares. E esperava-nos também o local mais emblemático do Caminho, a Cruz de San Salvador, acima já dos 1400 metros de altitude, pouco antes do Canto La Tusa, ponto mais alto de todos os Caminhos de Santiago, a 1572 metros de altitude.

Cruz de San Salvador, 8.05.2017, 7h50, 1450m alt.
A Natureza, as cores, o próprio esforço físico, criam em nós um sentimento de entrega, de comunhão com o espírito do Caminho. De repente ... sentimo-nos peregrinos a viver História, a Caminho das Santas Relíquias do Salvador. Já no primeiro dia, quando o impulso da Paula para rezar uma Ave Maria "fez surgir" a Sagrada Família ao nosso lado ... ela conseguiu pôr-me a rezar ... a mim ... que não sei o que sou! Mas, afinal ... o que é rezar? Se rezar é falar com o Universo, com o infinito ... então eu rezo muitas vezes ... em lugares como aquele ... em lugares onde sinto energias, forças telúricas ou celestiais ... em lugares como aquele! Não aconteceu propriamente na Cruz de San Salvador ... mas sim um pouco mais acima, a caminho e no Canto La Tusa ... quando avistamos outra enorme Cruz, feita de pedra e com pedras, no solo, horizontal ... tal como junto a ela me deitei. E ainda outra, no cume, esta vertical ... junto à qual as lágrimas se me soltaram férteis. Estávamos ali só nós, dois "irmãos" que se adoram, vivendo e sentindo a magia daquele lugar ... vivendo e sentindo os mistérios do Caminho!

Cruz de pedra no solo, entre a Cruz de San Salvador e o cume de Canto La Tusa
Canto La Tusa (1572m alt.) ... em comunhão com o Universo
Descida para o vale alto do rio Bernesga e para terras de Arbás
Daqueles cumes mágicos descemos para a mítica estrada do Puerto de Pajares. Antes da auto-estrada A66, era esta a ligação rodoviária que atravessava a Cordilheira Cantábrica rumo a Oviedo. Lá em baixo, estava a velha Colegiata de Santa María de Arbás, de novo junto ao rio Bernesga, que havíamos acompanhado em grande parte dos dois dias anteriores.

Descida para o Puerto de Pajares ...
... e para Arbás del Puerto e a sua Colegiata de Santa María de Arbás
Passado o Puerto de Pajares (1400m alt.), entrávamos nas Astúrias ... e esperava-nos um autêntico "mergulho" para as profundezas do vale do mesmo nome. Em pouco mais de 6 km, descemos quase mil metros de altitude, para as aldeias de Pajares e San Miguel del Rio ... continuando depois a descer ao longo do vale. Não que as minhas não acusassem o desnível ... mas as pernas da minha Mana Paula começaram a queixar-se fortemente; as descidas eram feitas aos "esses" e em esforço. O desnível acumulado nesta terceira etapa do Salvador ... ultrapassou os 1600m positivos ... e os 2200 negativos!

Um "mergulho" para o vale de Pajares (ou Payares, em asturiano)
Aldeia de Payares
Igreja e Hospital de Peregrinos de San Miguel de Payares
Vale do Rio Payares, próximo de San Miguel del Río
Se bem que já o tivéssemos conhecido em Poladura de La Tercia, em Payares ligámo-nos mais a um dos amigos que este Caminho de 2017 nos trouxe: o Michael, sul-africano, estava sentado à porta da Igreja (foto acima). Sendo o Caminho de San Salvador um dos Caminhos menos percorridos e não sendo esta uma época de turismo ... o único bar da aldeia estava fechado. Pois ... para este Caminho é conveniente estarmos minimamente prevenidos. O almoço foi portanto partilhado a três, antes de encetarmos o resto do "mergulho", rumo a San Miguel del Río e ao vale. O Caminho 2017 começava a ser também fabuloso nessa vertente, a do conhecimento, partilha e verdadeira amizade com outros peregrinos, que viriam a ser das mais diversas nacionalidades. Antes das três da tarde estávamos em Herías, a apenas 550 metros de altitude, com 29 km percorridos. E ... esperava-nos o paraíso...

Através de autênticas Catedrais naturais, chegamos à Ermida de San Miguel e à pequena aldeia de Herías
A jornada poderia terminar em Campumanes, como já poderia ter terminado em Payares, se a quiséssemos mais curta. Mas, próximo de Herías, tudo o que tínhamos lido apontava para o Albergue Paroquial do antigo Santuário de Bendueños. Desviado 1,5 km do Caminho, Sandra, a hospitaleira, previamente contactada, vem buscar os peregrinos a Herías ... e lá fomos, nós e o Michael, para aquele ermo perdido. O Santuário de Bendueños foi fundado por Afonso III em 905. Frente ao pórtico principal situa-se a Casa de las Novenas, onde habitava um eremita que cuidava do Santuário e dava guarida aos peregrinos; é lá que se situa o actual Albergue, que funciona em regime de donativo.

Santuário de Santa María de La Asunción de Bendueños
Casa de las Novenas, o "nosso" Albergue em Bendueños.
As botas ficam alto ... para que os cães não as roam...
Panorâmica do terraço da Casa de las Novenas, no Albergue de Bendueños
Nós dois, o Michael e três espanhóis éramos os únicos hóspedes para aquele fim de tarde e noite em Bendueños. Mãe jovem de 4 filhos a viver na aldeia, a Sandra preparou-nos um opíparo jantar comunitário, para além de nos abrir o frigorífico e os armários da cozinha do albergue. "Sirvam-se", dizia ela sorridente, espelho de simpatia e hospitalidade, tão ao espírito do Caminho e dos verdadeiros hospitaleiros medievais! Quanto é? Donativo, cada um dá o que entender, com jantar, dormida e pequeno almoço.
Portugueses (2), espanhóis (3) e sul africano (1) ... 6 peregrinos em Bendueños, com a Sandra, hospitaleira (ao centro)
A Fabada asturiana não podia faltar!
Nesta foto ... dois manos com o Michael, sul africano
O dia 9 de Maio amanheceu com algum nevoeiro. Dos bosques pareciam querer saltar Xanas, Nuberus e tantas outras figuras da riquíssima mitologia asturiana! Faltavam-nos duas etapas para chegar a Oviedo, ao encontro das relíquias de S. Salvador ... e ao encontro do Mano Zé Manuel Messias ... que pelas fotos que íamos publicando já se tinha apercebido do que estava a perder.

Numa manhã mágica e mística, 9.05.2017, 7h43: de regresso a Herías, retomando o Caminho
Com bastante menos história, estas duas etapas não deixaram contudo de ter os seus momentos de grande beleza paisagística, para além do convívio com o Michael e, aqui e ali, com os três espanhóis, um dos quais das Canárias. Aqui e ali ... também os "meus" melros, gralhas e corvos me saíam frequentemente ao Caminho. Dois melros-pretos são muitas vezes considerados como um símbolo de paz e de boa sorte; muitas culturas consideravam esta ave uma representação da Alma, e, como tal, usavam-na para indicar a vida eterna. Será que vou ter Vida eterna?... 😉

Os "meus" melros perseguem-me... (Campumanes, 8h26)
Santa Cristina de Lena, de origem visigótica
Às dez da manhã atravessávamos Pola de Lena, terra dos ancestrais de um meu "Mano Maior" (os "manos" vindos da noite dos tempos...) e acompanhávamos o rio do mesmo nome até à sua confluência com o Aller, para ambos formarem o rio Caudal. Estávamos bem no centro da cuenca mineira asturiana, rumo à capital mineira, Mieres del Camín. Pouco depois de Uxo - que nome curioso... - completámos, eu e a Mana Paula, os primeiros 100 km do nosso Caminho das Estrelas!

Rio Lena e Igreja de San Martín de Villayana, citada já em 905 por doação de Afonso III
Uxo, entre Pola de Lena e Mieres:
faz acompanhar de uma "uxa"
curioso nome ... para quem se
... que representa alguém... 😊
Completados os primeiros 100 km no Caminho das Estrelas 2017, pouco depois de Uxo
Rio Caudal, em Mieres del Camín
E chegou o dia 10 de Maio. Apenas 17 km nos separavam da Catedral de S. Salvador de Oviedo. Saímos de Mieres antes das sete, numa manhã a ameaçar alguma chuva, que no entanto não se concretizou. Do Picullanza já veríamos a capital das Astúrias, mas o nevoeiro não o permitiu.

Casares, 10.05.2017, 8h20 - E estamos a caminho de Oviedo
Por entre o Rio Nalón, catedrais verdes e horreos (espigueiros), às portas de Oviedo
11h20 ... com Oviedo à vista!
E pouco depois das onze e meia da manhã estávamos a entrar em Oviedo ... ao mesmo tempo que o Mano Zé Manel estava igualmente quase a chegar, de comboio, vindo de Portugal. O encontro, claro, só podia ser na Praça da Catedral de São Salvador ... e entrámos na Praça, vindos de "portas" diferentes ... quase que exactamente à mesma hora. O Michael, sul africano, testemunhou o encontro. Para ele, o Caminho terminava ali; para nós ... estava reunida a equipa para o Caminho Primitivo.

Junto à Catedral de Oviedo, dois Manos completam 124 km em 5 dias, pelo duro Camino de San Salvador ...
e reúnem-se ao Mano que, connosco, iria fazer o Caminho Primitivo
Visita obrigatória à Catedral, claro, e à sua Câmara Santa, onde se veneram as relíquias que são o objecto da peregrinação a Oviedo. Igualmente na Catedral, eu e a Paula recebemos a Salvadorana, o certificado que atesta a realização da peregrinação às relíquias de S. Salvador, desde León.

Catedral de San
Salvador de Oviedo
A Salvadorana
A Cruz de Los Ángeles e o Santo Sudário
A Arca Santa de Oviedo, que albergava o Santo Sudário
Instalados no Albergue "La Peregrina", a tarde foi de partilha do que havíamos vivido e do que íamos viver. Woody Allen, eternizado em Oviedo desde 2003, saudou os peregrinos que tinham acabado uma "aventura" ... para logo outra começar...

Três ... ou quatro peregrinos?... 😊 Com Woody Allen em Oviedo, 10.05.2017, 17h45
Os números do Caminho de San Salvador:
Ver o álbum completo
Etapas realizadas:
(1) León - La Robla (30 km)
(2) La Robla - Poladura de La Tercia (23 km)
(3) Poladura - Herías (29 km)
(4) Bendueños - Mieres (25 km)
(5) Mieres - Oviedo (17 km)
Desnível acumulado: 6121m D+ / 6860m D-
Foi duro? Bem ... o Caminho de San Salvador é, talvez, o mais duro Caminho de Santiago ... mas talvez o mais fabuloso! Pelos diversos episódios ocorridos (nem todos relatados, mas sentidos) ... a minha Querida Mana Paula chamou-lhe um "Caminho Mariano". E talvez só a muita Fé e perseverança lhe foram permitindo ultrapassar as dificuldades impostas pela dureza do percurso; as dores nas pernas passaram-lhe, felizmente, pouco depois de Oviedo. Mas mais não direi ... antes de relatar o Caminho Primitivo.
(Escrito em casa, após os Caminhos de San Salvador, Primitivo e Fisterra, em 30.05.2017)

1 comentário:

Paula Francisco disse...

Palavras não há para descrever esta etapa, há-que vivenciar. Ainda hoje tenho este Caminho cravado no meu coração. Mano Zé apenas uma correção, as pernas só começaram a dar problemas depois do 3 dia, depois da etapa mais difícil, ou seja no 4 dia. Para mim todo este Caminho poderá ser considerado Uma etapa Rainha.